26 de novembro de 2014

Toda forma de amor(es): relacionamentos fora do padrão

Por Gabriela Grillo

Amar é fundamental, entretanto, é aceitável ter apenas um amor. Ou assim pensa a sociedade, que construiu – e impõe – um modelo de relacionamento monogâmico. Porém, nem todo mundo ama do mesmo jeito. Na busca por escapar ao aprisionamento que as regras e imposições sociais implicam, há quem encontre novas maneiras de viver, pensar e agir.

O estudante de jornalismo Vagner Barreto é uma das pessoas que buscou outro tipo de amor para si. Ele se define como livre, uma vez que pode relacionar-se com quem quiser e permite à pessoa com quem está fazer o mesmo. “Num primeiro momento parece estranho, mas isso tem a ver com se apropriar do seu corpo e ter consciência de que ele é seu, logo, o poder de decisão sobre ele também é seu”, explica.

Por vezes, a monogamia leva a um sofrimento desnecessário – por insegurança, pelo medo da perda. Essas restrições impostas prejudicam o relacionamento. Vagner explica que sua concepção de amor funciona para ele justamente por ser libertador. “Não sou uma princesa de filme esperando um príncipe encantado, porra. Sou um jovem do século XXI. Acho carruagem um veículo de locomoção obsoleto”, ironiza.

O estudante lembra que sempre teve essa visão liberal, desde o primeiro “namoradinho”. A família e as pessoas com quem o acadêmico teve contato ao longo da vida tiveram influência nesse modo de perceber os relacionamentos. Vagner conta que sempre teve uma educação liberal e muita abertura para o diálogo. “Somos uma família que se adequou aos dias de hoje e podemos falar sobre sexo, drogas e rock’nroll no café da manhã”. Ele ressalta, ainda, que percebe mais apoio do que estranhamento, talvez por não ter um círculo de amigos muito convencional.

Contudo, todo relacionamento tem seus problemas, inclusive os livres. Vagner comenta que às vezes a compreensão é um processo difícil. Ele nem sempre conta, ao conhecer alguém, que ama dessa forma. Todavia, quando a relação se intensifica, é preciso haver diálogo e as reações costumam variar entre contrariedade e curiosidade. “Há um tempo estava ficando com um menino e um dia ele começou a perguntar sobre meus relacionamentos. Então eu expliquei e de repente ele estava me enchendo de perguntas, foi quase uma aula sobre relacionamentos livres. Ele parecia realmente desconfiado de como isso funcionava, se dava certo e quais atitudes eu tomava em determinadas situações. Foi divertido, mas ele nunca mais me ligou”. 

Amar (livremente) até pode ser difícil, mas certamente vale os embates diários contra o modelo tradicional. Como Vagner explica, “basta encontrar as pessoas certas, que entendam isso e concordem”. O objetivo, certamente, não é generalizar. O relacionamento monogâmico pode ser bom, sim. Só que se as restrições são uma imposição social e não uma escolha, vale a sugestão: liberte-se!

Na foto, Vagner Barreto. Créditos: Samantha Hunoff.

23 de novembro de 2014

O impacto cotidiano da renúncia ao automóvel

Por Diúlit Oldoni


Não raro nos deparamos com jovens que desejam - mais ainda do que a um apartamento ou uma faculdade - um carro. Sinônimo de praticidade e, por vezes, status, ter o próprio automóvel é “garantia de liberdade”, e a falta de vagas em estacionamentos, bem como a grande quantidade de revendedoras espalhadas pelas ruas, são provas de que os veículos, hoje, são muito mais do que um meio de transporte, mas sim um dos maiores objetos de desejo dta população. Prova disso são os dados fornecidos pelo Observatório das Metrópoles, que mostram que, desde o ano de 2001, o número de automóveis aumentou de forma gigantesca. Em 2012, por exemplo, o país encerrou o ano com uma frota total superior a 76 milhões de veículos, enquanto em 2001 havia apenas 34 milhões.

Ao atingir a maioridade, grande parte das pessoas colocam em prática seus planos de finalmente conseguir a habilitação para dirigir. Entretanto, apesar de parecer raro, ainda há quem leve em consideração todos os aspectos relacionados ao carro – não apenas os positivos -, e decide dar as costas à “independência” das quatro rodas.

Afinal, o que significa “vencer na vida”?

Não há dúvidas de que possuir um automóvel está atrelado ao conceito de “vencer na vida”. Afinal, este conceito realmente é imutável? Assim como tantas outras pessoas que buscam modos alternativos de vida, o garçom Pedro Rech, de 22 anos, acha que não. Influenciado desde muito cedo por obras de autores como Charles Bukowski, John Fante, Jack Kerouak e Louis-Ferdinand Céline, Pedro conta que nunca foi adepto desta ideia de “vencer na vida”. “Um bom emprego significa um bom salário, e para que serve um bom salário? Para consumir? Comprar bens materiais que funcionam como raízes, nos mantendo presos a um estilo de vida?”, questiona. Ele também relaciona os carros às imposições sociais herdadas de outros contextos históricos.

Temos à disposição todo o conhecimento do século XXI, mas a mentalidade do século XIX. Pedro exemplifica esta afirmação ao citar a monogamia, o conceito ainda muito conservador de família e o emprego fixo, características que ele gostaria que se tornassem anacronismos. “Nessa perspectiva, o automóvel, como bem de consumo individualista e símbolo de status, foi se tornando, na minha cabeça, como uma das grandes representações desse atraso. Porque, principalmente em Caxias do Sul e arredores, ser bem sucedido significa ter um carrão”, afirma. A partir desta concepção, ser bem sucedido dentro destes padrões, é o mesmo que compactuar com um sistema que oprime as liberdades individuais em nome da produção, que praticamente escraviza nações subdesenvolvidas para usufruir de sua matéria-prima, e que gera e incentiva desigualdades sociais.

Se cada um fizesse seu manifesto particular...

Além de toda a argumentação baseada na realidade social e na sua bagagem literária, Pedro também possui outros motivos para não aderir à cultura do automóvel. O agravante dos poluentes envolvidos nos processos de manutenção e fabricação, por exemplo, consistem em um dos fatores que incomodam o jovem. Além disso, ele ressalta que a popularização dos carros deu poder aos combustíveis fósseis, que hoje são, segundo Pedro, “fachadas para sistemas ditatoriais e guerras em todo o mundo”. Ele ainda lembra que todos esses horrores ocorrem para que duas ou três pessoas possam se locomover.

Este é o manifesto particular de Pedro contra a ordem estabelecida. Ele conta que acredita que o transporte público brasileiro é totalmente sucateado e que a situação das ciclovias poderia ser melhorada, mas que todo este panorama seria passível de mudança se mais pessoas aderissem à opção. Atos repletos de ideologia, mesmo quando parecem pequenos e individuais, com certeza fazem a diferença em um sistema social tão intrincado em nossa cultura.

Benefícios de verdade

Inicialmente, a família de Pedro se mostrou contra sua decisão. Seus pais insistiam que ele ao menos tirasse a carteira de motorista, para possíveis emergências. Entretanto, aos poucos eles deram razão ao filho, pois costumam ter incômodos relacionados ao carro e reconhecem que Pedro não demonstra ter dificuldades por conta da opção.

O jovem considera que esta decisão implica em adotar um novo estilo de vida. Usar o transporte público exige um planejamento de horários, o que o torna disciplinado. Ele ressalta ainda outros benefícios deste meio alternativo, como a caminhada. No lugar do status e do excesso de comodidade, Pedro tem as melhorias em sua saúde. Ao caminhar, ele passou a conhecer melhor a cidade e o microcosmo que estamos inseridos.

Conhecer todo o tipo de gente é um benefício insubstituível para o ex-estudante de Jornalismo. “Isso, de certa forma, expande a mente, fica mais fácil aceitar e compreender as diferenças”, esclarece. O jovem ressalta que abrir mão da carteira de habilitação nunca foi um limitador, muito pelo contrário, desta forma ficou muito mais fácil se tornar um personagem ativo da narrativa da experiência humana.

Na foto, o garçom Pedro Rech. Arquivo pessoal.