11 de dezembro de 2014

Comer sem maltratar

Por Diúlit Oldoni


Tornar-se vegetariano(a) vai muito além de apenas dar uma guinada nos hábitos alimentares. Há, por trás, uma infinidade de ideologias e questionamentos que levam uma pessoa a abrir mão de comer carne e também, por vezes, de seus derivados.

A estudante de Jornalismo Laís Prates, 21 anos, é vegetariana há aproximadamente um ano e meio. Ela conta que há dois anos passou a se questionar sobre o modo como tudo funciona, desde nossas atitudes até a alimentação. Laís passou a pesquisar sobre o assunto, e decidiu que não poderia ficar indiferente a ele. “Somos tão pequenos e destruímos tudo tão rápido!”, afirma. Pensando nisso, a estudante se deu conta de que não tem o direito de interferir na vida de outros, até mesmo dos animais. “Se somos tão racionais assim, porque continuamos nos alimentando de maneira tão primitiva?”, questiona.

Processos que valem a pena

Quando se recebe determinada educação, seja ela certa ou errada, é difícil desprender-se dela. Assim é como vegetarianismo. Quando uma pessoa cresce inserida em uma cultura que tem a carne como principal alimento, fugir desta “regra” é um processo que demanda tempo e determinação.
Laís comenta que, no início, passava meses sem ingerir carne e depois voltava a sua rotina habitual. Passado algum tempo, a estudante percebeu que já não sentia mais tanta falta deste alimento, então a eliminou de vez de seu cardápio. “Tenho consciência que a minha alimentação ainda afeta porque sou ovo-lacto-vegetariana, mas tenho reduzido muito o consumo de derivados”, comenta Laís, que ressalta que tudo é um processo.

Em relação aos restaurantes, a estudante comenta que a situação é complicada. “O que mais tem para quem não come carne é salada”, diz. Ela ainda cita o Restaurante Universitário (RU) da Universidade de Caxias do Sul (UCS), pois, segundo ela, oferece pouca variedade. “Os restaurantes que não são para vegetarianos/veganos geralmente investem pouco”.

O proprietário do RU, Ivan Ruzzarin, comenta que durante as “reuniões” para que o cardápio seja decidido, os vegetarianos são levados em consideração. Entretanto, ele assume que o prato principal sempre é a carne. “Se nós preparamos algo que possui carne em seus ingredientes, separamos outro prato que não possui. Nós procuramos encontrar o equilíbrio”, afirma.

Hoje se tem um crescimento de restaurantes pra esse público, mas é extremamente importante que os demais também pensem nos diferentes públicos, afinal, vivemos em uma sociedade plural, onde privilegiar a maioria é limitador, e até injusto. A estudante Laís ainda levanta a seguinte reflexão acerca do vegetarianismo: “As pessoas só conseguem enxergar os animais como produtos delas”.

Na primeira foto, a estudante Laís Prates. Arquivo pessoal.
A segunda foto retrata uma parte das variedades de alimentos oferecidas no RU da UCS. Foto: Gabriela Grillo.

8 de dezembro de 2014

Alimento da alma

Por Gabriela Grillo

Fila no restaurante, garfadas apressadas, espiada no relógio, correria. Mastigar por 30 segundos, nem pensar. A alimentação é um dos muitos prazeres e necessidades do cotidiano. Talvez, nem sempre tão prazerosa assim.

A qualidade de vida depende de vários fatores e a comida certamente é um deles. Historicamente, o alimento já passou por diversas formas de produção e consumo, de modo a acompanhar a época vivida. Hoje, ele é consumido com pressa e sem a devida apreciação, o que impacta de forma negativa na relação das pessoas com a comida.

Em resposta a isso, foi criado, em 1986, o Slow Food. O movimento, representado por uma associação internacional sem fins lucrativos, têm como filosofia o prazer da alimentação, o consumo de produtos bons, limpos e justos e o suporte à comida local. Ele contém mais de 100.000 membros e tem escritórios na Itália, Alemanha, Suíça, Estados Unidos, França, Japão e Reino Unido, com apoiadores em 150 países.

Em Garibaldi, na Serra Gaúcha, o Slow Food encontrou representação regional por meio do convivium Primeira Colônia Italiana. Criado pela secretária de Turismo e Cultura do município, Ivane Fávero, o grupo promove o gosto e a consciência alimentar. “Desenvolvemos atividades como o projeto Hortas Escolares, com a atuação voluntária dos associados, e promovemos encontros e eventos. Para o próximo ano, o foco será a ‘Educação para o Gosto’”, afirma.

O nome do convivium, Primeira Colônia Italiana, é uma homenagem aos imigrantes italianos que chegaram à região e marca a ligação de Garibaldi com a Itália, onde surgiu o movimento. O grupo tem como intuito estimular, no município, a produção de alimentos de qualidade que impactem positivamente no local e na vida das pessoas que ali residem. “Também entendemos que existe uma cultura que merece ser preservada, como a celebração em torno da mesa, em cada família”, comenta a Secretária, que convida os residentes na Região Uva e Vinho a associarem-se. Para isso, basta escrever para ivanefa@gmail.com.

O chef Rodrigo Bellora, também associado ao convivium Primeira Colônia Italiana e proprietário do restaurante Valle Rústico, localizado em Garibaldi, reflete a filosofia do Slow Food no estabelecimento.  “Valorizamos os ingredientes locais e buscamos técnicas antigas de preparo desses produtos, recuperando a cultura local. Além disso, conhecemos e remuneramos de maneira justa todos os nossos parceiros, vizinhos e produtores”, explica. Atualmente, todas as saladas, temperos, frutas e vegetais utilizados no cardápio do restaurante são produzidos no local.

A comida tem uma íntima relação com a vida que se leva, uma vez que reflete a relação das pessoas com os pequenos prazeres do cotidiano. Preocupar-se com os processos que permeiam o alimento, da produção ao consumo, e fazer uma pausa na correria para as refeições, pode mudar o dia-a-dia e a disposição de quem quer fazer o bem por aí.


Informações retiradas do Guia alimentar para a população brasileira,
elaborado pelo Ministério da Saúde, em 2014.

Foto e infográfico: Gabriela Grillo

3 de dezembro de 2014

O que podemos fazer para mudar nosso mundo: ações que colorem as ruas

Por Diúlit Oldoni

Os padrões impostos pela sociedade estão – infelizmente – enraizados demais em nossa cultura para que a sua quebra aconteça de forma fácil. Mudar o mundo inteiro é, de fato, uma ideia um tanto utópica, porém, nós com certeza podemos mudar nosso mundo – e o de outras pessoas também. Esse é um dos ideais defendidos pelas criadoras do projeto Somos Instantes, em Caxias do Sul. As organizadoras preferem se manter anônimas, já que não importa de onde a positividade vem, e sim para onde ela vai.

Desde setembro, a cidade exibe em suas ruas lambe-lambes com mensagens positivas que significam algo tanto para as envolvidas, quanto para a população em geral. “A nossa intenção é tentar colorir de alguma forma o nosso mundo e o mundo de quem passa pelas ruas e enxerga nosso trabalho”, explica uma das organizadoras.

Coisas boas contagiam!

Em uma cidade que é, muitas vezes, cinza demais para se viver, boas ações logo se tornam evidentes em meio ao caos. As idealizadoras do projeto comentam que receberam feedback positivo desde o primeiro dia em que seu projeto foi às ruas. Várias pessoas as paravam na rua para entender a ação e elogiar a iniciativa. “Um senhor de idade acompanhou o processo de colagem de um lambe-lambe, admirado. Foi muito bacana!”, conta uma delas, que ficou feliz ao saber que as pessoas se identificaram com suas mensagens e abraçaram a ideia.

Cada cartaz traz em si uma pequena mensagem, mas que carrega um mundo inteiro por trás. O processo de criação das frases surge por meio de um brainstorming, onde as ideias são tidas em conjunto, com base nas inspirações de cada uma das envolvidas.

A vontade de espalhar coisas boas irá, em breve, além dos lambe-lambes. Segundo as organizadoras, novas intervenções artísticas já estão a caminho, com parcerias que somarão ainda mais positividade à ação. Além disso, o projeto Somos Instantes terá uma instalação no Manifestasol, evento que ocorrerá no dia 6 de dezembro, na Casa das Etnias, e que todos estão convidados a participar!

Coisas boas transformam!


O projeto Somos Instantes é a prova de que se cada um de nós se preocupar mais com as coisas da vida e agir em prol delas, por menor que seja esta atitude, podemos melhorar a vida de quem está ao nosso redor. “A gente vive em uma sociedade muito materialista e fechada. As pessoas estão tão presas na sua individualidade e na sua rotina que esquecem de olhar pro lado, notar o outro, notar a si mesmo”, apontam as organizadoras.

Além disso, elas acreditam em algo fundamental para o presente e para o futuro: que a nossa geração tem a capacidade de mudar o panorama fechado no qual nos encontramos. “Todo mundo deve acreditar!”, afirmam. O projeto ainda deixa o questionamento: o que cada um de nós pode fazer para mudar o mundo?

Confira mais algumas fotos das ações deste projeto:


26 de novembro de 2014

Toda forma de amor(es): relacionamentos fora do padrão

Por Gabriela Grillo

Amar é fundamental, entretanto, é aceitável ter apenas um amor. Ou assim pensa a sociedade, que construiu – e impõe – um modelo de relacionamento monogâmico. Porém, nem todo mundo ama do mesmo jeito. Na busca por escapar ao aprisionamento que as regras e imposições sociais implicam, há quem encontre novas maneiras de viver, pensar e agir.

O estudante de jornalismo Vagner Barreto é uma das pessoas que buscou outro tipo de amor para si. Ele se define como livre, uma vez que pode relacionar-se com quem quiser e permite à pessoa com quem está fazer o mesmo. “Num primeiro momento parece estranho, mas isso tem a ver com se apropriar do seu corpo e ter consciência de que ele é seu, logo, o poder de decisão sobre ele também é seu”, explica.

Por vezes, a monogamia leva a um sofrimento desnecessário – por insegurança, pelo medo da perda. Essas restrições impostas prejudicam o relacionamento. Vagner explica que sua concepção de amor funciona para ele justamente por ser libertador. “Não sou uma princesa de filme esperando um príncipe encantado, porra. Sou um jovem do século XXI. Acho carruagem um veículo de locomoção obsoleto”, ironiza.

O estudante lembra que sempre teve essa visão liberal, desde o primeiro “namoradinho”. A família e as pessoas com quem o acadêmico teve contato ao longo da vida tiveram influência nesse modo de perceber os relacionamentos. Vagner conta que sempre teve uma educação liberal e muita abertura para o diálogo. “Somos uma família que se adequou aos dias de hoje e podemos falar sobre sexo, drogas e rock’nroll no café da manhã”. Ele ressalta, ainda, que percebe mais apoio do que estranhamento, talvez por não ter um círculo de amigos muito convencional.

Contudo, todo relacionamento tem seus problemas, inclusive os livres. Vagner comenta que às vezes a compreensão é um processo difícil. Ele nem sempre conta, ao conhecer alguém, que ama dessa forma. Todavia, quando a relação se intensifica, é preciso haver diálogo e as reações costumam variar entre contrariedade e curiosidade. “Há um tempo estava ficando com um menino e um dia ele começou a perguntar sobre meus relacionamentos. Então eu expliquei e de repente ele estava me enchendo de perguntas, foi quase uma aula sobre relacionamentos livres. Ele parecia realmente desconfiado de como isso funcionava, se dava certo e quais atitudes eu tomava em determinadas situações. Foi divertido, mas ele nunca mais me ligou”. 

Amar (livremente) até pode ser difícil, mas certamente vale os embates diários contra o modelo tradicional. Como Vagner explica, “basta encontrar as pessoas certas, que entendam isso e concordem”. O objetivo, certamente, não é generalizar. O relacionamento monogâmico pode ser bom, sim. Só que se as restrições são uma imposição social e não uma escolha, vale a sugestão: liberte-se!

Na foto, Vagner Barreto. Créditos: Samantha Hunoff.

23 de novembro de 2014

O impacto cotidiano da renúncia ao automóvel

Por Diúlit Oldoni


Não raro nos deparamos com jovens que desejam - mais ainda do que a um apartamento ou uma faculdade - um carro. Sinônimo de praticidade e, por vezes, status, ter o próprio automóvel é “garantia de liberdade”, e a falta de vagas em estacionamentos, bem como a grande quantidade de revendedoras espalhadas pelas ruas, são provas de que os veículos, hoje, são muito mais do que um meio de transporte, mas sim um dos maiores objetos de desejo dta população. Prova disso são os dados fornecidos pelo Observatório das Metrópoles, que mostram que, desde o ano de 2001, o número de automóveis aumentou de forma gigantesca. Em 2012, por exemplo, o país encerrou o ano com uma frota total superior a 76 milhões de veículos, enquanto em 2001 havia apenas 34 milhões.

Ao atingir a maioridade, grande parte das pessoas colocam em prática seus planos de finalmente conseguir a habilitação para dirigir. Entretanto, apesar de parecer raro, ainda há quem leve em consideração todos os aspectos relacionados ao carro – não apenas os positivos -, e decide dar as costas à “independência” das quatro rodas.

Afinal, o que significa “vencer na vida”?

Não há dúvidas de que possuir um automóvel está atrelado ao conceito de “vencer na vida”. Afinal, este conceito realmente é imutável? Assim como tantas outras pessoas que buscam modos alternativos de vida, o garçom Pedro Rech, de 22 anos, acha que não. Influenciado desde muito cedo por obras de autores como Charles Bukowski, John Fante, Jack Kerouak e Louis-Ferdinand Céline, Pedro conta que nunca foi adepto desta ideia de “vencer na vida”. “Um bom emprego significa um bom salário, e para que serve um bom salário? Para consumir? Comprar bens materiais que funcionam como raízes, nos mantendo presos a um estilo de vida?”, questiona. Ele também relaciona os carros às imposições sociais herdadas de outros contextos históricos.

Temos à disposição todo o conhecimento do século XXI, mas a mentalidade do século XIX. Pedro exemplifica esta afirmação ao citar a monogamia, o conceito ainda muito conservador de família e o emprego fixo, características que ele gostaria que se tornassem anacronismos. “Nessa perspectiva, o automóvel, como bem de consumo individualista e símbolo de status, foi se tornando, na minha cabeça, como uma das grandes representações desse atraso. Porque, principalmente em Caxias do Sul e arredores, ser bem sucedido significa ter um carrão”, afirma. A partir desta concepção, ser bem sucedido dentro destes padrões, é o mesmo que compactuar com um sistema que oprime as liberdades individuais em nome da produção, que praticamente escraviza nações subdesenvolvidas para usufruir de sua matéria-prima, e que gera e incentiva desigualdades sociais.

Se cada um fizesse seu manifesto particular...

Além de toda a argumentação baseada na realidade social e na sua bagagem literária, Pedro também possui outros motivos para não aderir à cultura do automóvel. O agravante dos poluentes envolvidos nos processos de manutenção e fabricação, por exemplo, consistem em um dos fatores que incomodam o jovem. Além disso, ele ressalta que a popularização dos carros deu poder aos combustíveis fósseis, que hoje são, segundo Pedro, “fachadas para sistemas ditatoriais e guerras em todo o mundo”. Ele ainda lembra que todos esses horrores ocorrem para que duas ou três pessoas possam se locomover.

Este é o manifesto particular de Pedro contra a ordem estabelecida. Ele conta que acredita que o transporte público brasileiro é totalmente sucateado e que a situação das ciclovias poderia ser melhorada, mas que todo este panorama seria passível de mudança se mais pessoas aderissem à opção. Atos repletos de ideologia, mesmo quando parecem pequenos e individuais, com certeza fazem a diferença em um sistema social tão intrincado em nossa cultura.

Benefícios de verdade

Inicialmente, a família de Pedro se mostrou contra sua decisão. Seus pais insistiam que ele ao menos tirasse a carteira de motorista, para possíveis emergências. Entretanto, aos poucos eles deram razão ao filho, pois costumam ter incômodos relacionados ao carro e reconhecem que Pedro não demonstra ter dificuldades por conta da opção.

O jovem considera que esta decisão implica em adotar um novo estilo de vida. Usar o transporte público exige um planejamento de horários, o que o torna disciplinado. Ele ressalta ainda outros benefícios deste meio alternativo, como a caminhada. No lugar do status e do excesso de comodidade, Pedro tem as melhorias em sua saúde. Ao caminhar, ele passou a conhecer melhor a cidade e o microcosmo que estamos inseridos.

Conhecer todo o tipo de gente é um benefício insubstituível para o ex-estudante de Jornalismo. “Isso, de certa forma, expande a mente, fica mais fácil aceitar e compreender as diferenças”, esclarece. O jovem ressalta que abrir mão da carteira de habilitação nunca foi um limitador, muito pelo contrário, desta forma ficou muito mais fácil se tornar um personagem ativo da narrativa da experiência humana.

Na foto, o garçom Pedro Rech. Arquivo pessoal.